Carnaval

Ilê Aiyê celebra raízes africanas e o poder das matriarcas do Togo no Carnaval 2027

O Ilê Aiyê anunciou, no último domingo (1º), o tema “Togo – o Assigamé e o Império das Nana Benz” como o escolhido para guiar o 52º carnaval de sua história. A escolha permite ao filho das ladeiras do Curuzu retornar às origens de seu continente-mãe, a África, para mergulhar e coroar a história do Togo, seu Assigamé e as poderosas Nana Benz.

O tema é mais uma oportunidade de o Mais Belo dos Belos reforçar seu papel no Carnaval como instrumento político e cultural ao apresentar a história de resiliência e poder matriarcal do Togo, país da África Ocidental, a partir dos laços que o unem ao Brasil e à Bahia, defendendo mais uma vez, com seus parceiros e filiados, a importância da ancestralidade africana e a força da mulher negra.

Da viagem de Vovô ao tema do Carnaval

O desejo de trazer ao Curuzu a história do Togo surgiu após uma viagem de Vovô do Ilê, presidente e fundador do bloco afro, ao país, e o interesse pelo pan-africanismo. Durante a pesquisa, aspectos culturais e históricos como a resistência dos povos ancestrais e a ligação religiosa chamaram a atenção da equipe de pesquisa do primeiro bloco afro do mundo.

“A gente viu uma influência muito forte da mulher naquele país. Vovô queria que o tema fosse focado no grande mercado que tem lá, que é chamado de Assigamé. Ele queria que a gente falasse sobre a importância desse mercado e a gente descobriu a história das Nana Benz”, explica o pesquisador e produtor do bloco Sandro Teles, um dos coordenadores do Festival de Música anual do Mais Belo dos Belos.

Em mais um Carnaval, o Ilê Aiyê mantém sua tradição de resgatar a ancestralidade que conecta povos brasileiros, africanos e afro-brasileiros em uma mesma rede de afetos e lutas. Se no tema de 2026 o bloco prestou homenagem à resiliência de um povo brasileiro, em 2027 o Mais Belo dos Belos se posiciona como disseminador da história de mais uma nação africana.

Do Assigamé à avenida: quem são as Nana Benz

Figuras importantes na história social e econômica da capital togolesa, Lomé, as Nana Benz se tornaram uma referência de grande importância para essa sociedade durante a segunda metade do século XX. A história do país africano é marcada por grande influência religiosa e comercial desde cedo e, em meio a crises e revoltas, as mulheres togolesas se puseram como figura de destaque, liderando revoltas, ajudando em fugas e agregando significados culturais à população que alteraram as configurações sociais do país.

Título de profundo respeito e autoridade atribuído às mulheres vendedoras, as Nana Benz são oriundas da classe trabalhadora e dominaram o mercado de retalhos da década de 1960 até 1990. Dotadas de Mercedes-Benz e esperteza, as Nanas dominaram o setor econômico do Togo até 1994, rejeitando a submissão de gênero, mantendo uma rede de solidariedade feminina enquanto assumiam papéis tradicionalmente reservados aos homens.

Seu comércio de tecido chegou a superar outros setores pulsantes da economia nacional, dominando o Grand Marché de Lomé, chamado por seu povo de Assigamé. Uma verdadeira arena de cultura, tradição oral, práticas ancestrais e comércio, o mercado têxtil com as Nana Benz superou por muitas vezes o mercado de extração de fósforo, uma das principais receitas do Estado.

“É isso que a gente procura fazer com esse tema: contar a história do Togo pré-colonial, falar um pouco sobre o período colonial e a luta pela independência, contar a importância do mercado, o Assigamé, a importância das mulheres, das Nana Benz”, explica Sandro Teles sobre a construção do tema, que guiará as composições participantes do 52º Festival de Música Negra Ilê Aiyê.

Ancestralidade e resistência do Togo para o Carnaval

A história do Togo remonta à era Paleolítica, quando seus povos ancestrais se fixaram em regiões montanhosas e cursos de água cercados por solo fértil, clima fresco e defesa natural. Povo de resistência, o Togo pré-colonial era um dos principais produtores de ferro entre os séculos V a.C. e XII d.C. Ao longo de sua história, seus povos se organizaram ao longo do litoral africano em busca de liberdade contra expansões militares e opressão, tendo lutado contra um regime autocrático e adotado um sistema de governança descentralizado com papel importante para o comércio.

Com uma burguesia formada ao longo dos anos por afro-brasileiros, ex-escravizados que retornaram à sua terra-mãe, e um povo de profundas raízes com a filosofia de veneração da natureza, o Vondun, seus povos se mantiveram fortes mesmo após o controle alemão e, posteriormente, franco-britânico sobre suas terras. O país independente se fortaleceu a partir de uma economia intermediadora, da preservação mental por meio da religião e da resistência de seu povo, compartilhando com o Brasil aspectos culturais como o culto aos Voduns, a culinária de rua e a festa ao Nosso Senhor do Bonfim. A união Togo-Brasil também está presente nos laços de amizade, tendo a cidade de Aneho sido considerada cidade-irmã de Cachoeira, ambas cidades de preservação ancestral de seus povos e territórios.

SERVIÇO

Carnaval 2027 do Ilê Aiyê – Tema “Togo – o Assigamé e o Império das Nana Benz”
Bloco: Ilê Aiyê, o primeiro bloco afro do Brasil
Edição: 52º Carnaval
Tema anunciado em: 1º de novembro de 2026, no Largo da Tieta, no Pelourinho
Composições: integram o 52º Festival de Música Negra Ilê Aiyê
Realização: Ministério da Cultura e Associação Cultural Bloco Carnavalesco Ilê Aiyê
Coordenação: Caderno 2 Produções
Produção: Central Black
Apoio: ITS Brasil
Parceria: Salvador Capital Afro, Cidade da Música, Secult e Prefeitura de Salvador
Patrocínio: Grupo Belov e Petrobras (patrocínio master), via Lei Rouanet

Foto: André Frutuôso | Estúdio Casa de Mainha

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