Literatura

Literatura negra e letramento racial são destaques na FLICA 2026 no Mês da Consciência Negra

Formar leitores também é ampliar os olhares sobre o mundo, reconhecer diferentes histórias e compreender as relações que atravessam a sociedade. Na 14ª Festa Literária Internacional de Cachoeira (FLICA), que acontece de 5 a 8 de novembro, essa perspectiva ganha força com uma programação que aproxima letramento literário e racial durante o Mês da Consciência Negra. Na Tenda Paraguaçu, debates sobre inteligência artificial, racismo algorítmico, ancestralidade e narrativas negras propõem reflexões sobre a conexão entre literatura, educação e tecnologia.

Abertura: IA, distopias e racismo algorítmico

Entre os nomes que contribuem para essa discussão está Nina da Hora, cientista da computação, pesquisadora e ativista antirracista, que dividirá a mesa de abertura da Tenda Paraguaçu com a jornalista Miriam Leitão, na quinta-feira (5), às 11h. Guiada pelo tema “Penso, logo… IA: distopias à vista?” e mediada pelo especialista em cultura Zulu Araújo, a conversa traz os impactos da inteligência artificial na sociedade, com atenção aos dilemas éticos que podem reproduzir desigualdades raciais.

Na ocasião, Nina lança o livro “Do rosto ao vetor: uma história da medição do rosto, da eugenia ao algoritmo”, no qual investiga o conceito de epistemicídio computacional, que trata do apagamento ou da distorção de conhecimentos e identidades de grupos historicamente marginalizados.

“A IA aprende com dados, e os dados que temos no Brasil carregam a nossa história: quem foi abordado pela polícia, quem conseguiu crédito, quem foi fotografado e quem nunca entrou nos registros. Um sistema treinado com isso aprende essas diferenças como se fossem normais e devolve o resultado com cara de decisão técnica. O erro começa antes da máquina, na forma como a gente classifica e representa as pessoas”, analisa Nina.

Segundo o curador Marielson Carvalho, o letramento literário passa pela compreensão dessas transformações na forma como as pessoas se relacionam com a leitura. “Nós estamos vendo o quanto os algoritmos estão dando um nó nas legislações e como há uma necessidade de regulação da IA. É preciso pensar nos benefícios e malefícios da IA e nos caminhos para lidar com ela no futuro, tanto na literatura quanto nas relações pessoais”, pontua.

Sarau “Sued Nunes Não Anda Só”

Ainda na quinta-feira (5), às 19h, o espaço recebe o sarau “Sued Nunes Não Anda Só”, encontro que reúne vozes negras baianas em performances literárias e musicais refletidas por experiências coletivas de luta contra o racismo. Ao lado da cantora e compositora Sued Nunes, participam Afropecado, poeta marginal, MC e produtora cultural; Duda Santhana, jovem poeta e declamadora; MC Jaynne, rapper e compositora; e Matheus Kawan, escritor, poeta e pesquisador.

Matheus Kawan comenta que o próprio título do sarau reforça a ideia de que nenhuma trajetória, seja artística ou não, se constrói sozinha. “Acredito que nossas vozes e linguagens artísticas, embora distintas, irão se conectar a partir do senso de comunidade e pertencimento. Quando nosso eu se reflete em quem se parece com a gente, os caminhos se povoam pelas experiências compartilhadas. O público pode esperar um encontro crítico e sensível, marcado pelo afeto, ancestralidade e pela potência criativa”, avalia.

Inteligência ancestral e afrofuturismo

Na sexta-feira (6), às 15h, chega a vez da mesa “Inteligência ancestral, memórias afrofuturistas”, que reconhecerá as oralidades africanas e diaspóricas como formas de preservar saberes e imaginar novas possibilidades para o futuro. Integram o bate-papo o escritor afrofuturista Ale Santos, apontado pela Science Fiction Research Association (SFRA) como o mais popular da nova geração, e Cesar Sobrinho, pesquisador, professor e tradutor reconhecido por traduzir do francês para o português contos populares africanos e afrodiaspóricos. A mediação será da professora, pesquisadora e crítica literária Cristian Sales.

Para Ale Santos, reconhecer a inteligência ancestral também representa ampliar a compreensão sobre o que é tecnologia e questionar a ideia de que o futurismo depende necessariamente das máquinas e aplicativos. “Povos e países que não têm o controle das máquinas, como as Big Techs dos Estados Unidos, são vistos como periferia, sendo que, na história da humanidade, muitas tecnologias vieram de povos amazônicos, africanos e latinos. Elas conseguem constituir um progresso social, harmônico, sustentável e biodiverso muito mais poderoso. As tecnologias culinárias, musicais e artísticas, por exemplo, ajudam a manter tradições, conectar indivíduos durante gerações e preservar o equilíbrio com o meio ambiente”, explica.

Racismo e algoritmos

No sábado (7), às 18h, a mesa “Inteligência artificial e racismo – Algoritmos da branquitude” encerra a programação da Tenda Paraguaçu com uma reflexão sobre como sistemas de inteligência artificial podem perpetuar estruturas históricas de poder, preconceitos e discriminações. A discussão sobre o racismo nas tecnologias digitais e seus efeitos nas relações étnico-raciais no Brasil contará com Nilma Lino Gomes, pedagoga, escritora e ex-ministra das Mulheres, da Igualdade Racial e dos Direitos Humanos, e Tarcízio Silva, pesquisador em políticas tecnológicas, doutor em Ciências Humanas e Sociais e mestre em Comunicação. A mediação ficará a cargo de Jamile Borges, professora e vice-reitora da UFBA.

A proposta curatorial da Tenda Paraguaçu considera a conscientização parte essencial do letramento literário e racial. Inspirado pelo pensamento de Paulo Freire, “A leitura do mundo precede a leitura da palavra”, o curador Marielson Carvalho ressalta que esse processo começa antes mesmo da alfabetização e passa pela compreensão das realidades que cercam cada indivíduo. “A criança, antes de ler, tem acesso a vários sinais, significados, seja a natureza, oralidade ou histórias contadas pelos seus mais velhos. O livro é uma referência de conhecimento, mas não é a única. A literatura escrita e oral fazem parte da nossa programação, porque a contação de histórias, por exemplo, faz parte desse letramento”, completa.

SERVIÇO

Tenda Paraguaçu – FLICA 2026
Data: 5 a 8 de novembro de 2026
Local: Beira do Rio Paraguaçu, Cachoeira (BA)
Entrada: gratuita
Mais informações: @flicaoficial | https://www.instagram.com/flicaoficial/

Programação da Tenda Paraguaçu

5 de novembro (quinta-feira)
11h — Mesa de abertura “Penso, logo… IA: distopias à vista?”, com Nina da Hora e Miriam Leitão; mediação de Zulu Araújo. Lançamento do livro “Do rosto ao vetor”, de Nina da Hora
19h — Sarau “Sued Nunes Não Anda Só”, com Sued Nunes, Afropecado, Duda Santhana, MC Jaynne e Matheus Kawan

6 de novembro (sexta-feira)
15h — Mesa “Inteligência ancestral, memórias afrofuturistas”, com Ale Santos e Cesar Sobrinho; mediação de Cristian Sales

7 de novembro (sábado)
18h — Mesa “Inteligência artificial e racismo – Algoritmos da branquitude”, com Nilma Lino Gomes e Tarcízio Silva; mediação de Jamile Borges

Realização
Patrocínio: Governo do Estado da Bahia, por meio do FazCultura, da Secretaria da Fazenda (Sefaz), da Secretaria de Cultura do Estado da Bahia (SecultBA) e da Secretaria da Educação (SEC)
Integra o Bahia Literária, programa da Fundação Pedro Calmon (FPC)
Realização: SCHOMMER Produções

Foto: Acervo pessoal

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