Literatura

Violência política, racismo e crises migratórias entram em debate com escritoras internacionais na FLICA 2026

A Festa Literária Internacional de Cachoeira (FLICA) 2026 recebe, no dia 7 de novembro, duas vozes marcantes da literatura contemporânea internacional na mesa “Diásporas literárias – passagens e permanências”. O encontro ocorre na Tenda Paraguaçu, com mediação da pesquisadora Edma de Góis. Reunindo a ruandesa Scholastique Mukasonga, radicada na França, e a venezuelana María Elena Morán, que vive no Brasil, o debate propõe uma reflexão profunda sobre como os deslocamentos forçados, a migração e as crises políticas atravessam a criação artística e moldam novas identidades.

Embora partam de contextos históricos e geográficos distintos, ambas as escritoras utilizam a literatura como território de preservação da memória, reconstrução de identidades e resistência ao apagamento. Suas produções dialogam de forma direta com urgências globais do Sul Global e do Ocidente, como o avanço do conservadorismo e da extrema-direita, o endurecimento de políticas anti-imigração, o racismo e a xenofobia. A partir de relatos pessoais e ficcionais, a mesa discute de que maneira a experiência do exílio transforma a relação com a terra natal e reconfigura o sentimento de pertencimento.

María Elena Morán e a intimidade atravessada pela crise

A venezuelana María Elena Morán, vencedora do Prêmio Café Gijón de 2022 e autora do recém-lançado “Voltar a Quando” (Biblioteca Azul, 2025), aborda em sua obra o impacto da crise político-social da Venezuela sobre a intimidade familiar. No livro, a trajetória de uma mãe que migra para o Brasil deixando a filha em seu país expõe as dores da separação e as contradições do deslocamento.

“Ser imigrante é ter que construir uma vida do zero num país, numa língua e numa cultura alheias, e, na medida em que você vai se apropriando delas — ou elas de você —, você vai se alheando das que te são próprias. Acho que o estrangeirismo tem a ver com essa condição de estar entre lugares, línguas e experiências, sem pertencer inteiramente a nenhum deles”, afirma Morán.

“Me interessa pensar como a violência política não se limita ao espaço público, mas atravessa a intimidade, transforma os vínculos e interfere na maneira como as pessoas se reconhecem e imaginam o futuro. Na ficção, consigo aproximar experiências individuais e processos coletivos, evidenciando contradições, desigualdades e formas de violência, inclusive a xenofobia”, completa a autora.

Scholastique Mukasonga e a memória do genocídio de Ruanda

Já a aclamada escritora ruandesa Scholastique Mukasonga traz ao debate a perspectiva da diáspora africana e o resgate da memória diante do trauma. De origem tutsi, Mukasonga relata que sofreu perseguições étnicas desde a infância e vive na França desde 1992. Após perder 37 familiares no genocídio de Ruanda em 1994, transformou a dor em literatura de reconhecimento mundial.

Autora de obras como “Baratas”, “A Mulher de Pés Descalços” e “Nossa Senhora do Nilo” (vencedor do Prêmio Renaudot), Mukasonga é apontada constantemente como uma das fortes candidatas ao Prêmio Nobel de Literatura.

Curadoria e reflexão sobre a diáspora

Com curadoria de Marielson Carvalho, a Tenda Paraguaçu busca tensionar os limites entre a experiência individual e os grandes acontecimentos históricos, destacando o papel da ficção na compreensão da complexidade humana em tempos de crise.

“Essas duas autoras vêm de lugares e perspectivas diaspóricas diferentes. Mukasonga é importante para trazer a abordagem da África a partir da diáspora, falando de racismo, xenofobia e migração como uma autora negra na Europa. Já com María Elena Morán, puxamos para as questões atuais da América Latina e do Sul Global, discutindo como a violência política e as relações internacionais afetam as famílias”, destaca o curador.

“A proposta da mesa é entender como essas autoras colocam em seus romances essa memória da diáspora, do exílio, a saudade da terra natal e as circunstâncias de adaptação. É um debate sobre a escrita como espaço de permanência e resistência em tempos em que a extrema-direita e as restrições aos imigrantes crescem no mundo”, conclui Marielson.

SERVIÇO

FLICA 2026
Quando: 5 a 8 de novembro de 2026
Local: Cachoeira (BA)
Entrada: gratuita
Mais informações: @flicaoficial | https://www.instagram.com/flicaoficial/

Mesa “Diásporas literárias – passagens e permanências”
Quando: 7 de novembro de 2026 (sábado), às 14h
Onde: Tenda Paraguaçu — Beira do Rio Paraguaçu, Cachoeira (BA)
Participantes: Scholastique Mukasonga e María Elena Morán
Mediação: Edma de Góis
Curadoria da Tenda Paraguaçu: Marielson Carvalho
Entrada: gratuita

Realização e patrocínio
Realização: Ministério da Cultura, por meio da Lei Federal de Incentivo à Cultura (Lei Rouanet)
Patrocínio: Petrobras
Apoio: EMBASA, Sebrae, Prefeitura Municipal de Cachoeira, Governo do Estado, Secretaria de Cultura do Estado (SecultBA) e Secretaria da Fazenda (Sefaz)
Integra o projeto Bahia Literária, da Fundação Pedro Calmon (FPC), unidade vinculada à SecultBA, e da Secretaria Estadual de Educação (SEC)
Produção: Schommer Produções

Foto: Rafael Trindade / Editora Nós

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