Teatro

Espetáculo “Júlia Fetal e o Crime da Bala de Ouro” volta ao palco em Salvador com alerta sobre o feminicídio

Uma história de amor que terminou em assassinato, uma bala que atravessou quase dois séculos de memória e uma pergunta que continua atual: quanto tempo ainda será necessário para que a sociedade compreenda que ciúme, posse e controle não são demonstrações de amor? É a partir dessa inquietação que o espetáculo “Júlia Fetal e o Crime da Bala de Ouro” volta ao palco de Salvador no dia 1º de setembro, terça-feira, às 19h, no Teatro Xisto Bahia, nos Barris.

Com texto e direção de Adson Brito do Velho, a montagem recupera a história de Júlia Clara Fetal, jovem de 20 anos assassinada a tiros pelo ex-noivo, o professor João Estanislau da Silva Lisboa, em 20 de abril de 1847. O episódio, que chocou a sociedade soteropolitana do século XIX, ficou conhecido como o “Crime da Bala de Ouro”, alimentando a história de que o assassino teria confeccionado uma bala utilizando as alianças do próprio noivado.

Quase 180 anos depois, a peça revisita esse acontecimento não apenas como documento da memória de Salvador, mas como uma história que continua encontrando ecos no Brasil contemporâneo. A montagem coloca em cena os mecanismos de posse, ciúme, controle e violência que culminaram na morte de Júlia e propõe ao público uma reflexão sobre os diferentes caminhos que podem levar às situações de violência contra as mulheres.

Com 50 minutos de duração, a peça combina reconstituição histórica, teatro e memória para apresentar ao público uma Salvador do Brasil Imperial, ao mesmo tempo em que estabelece uma ponte direta com questões urgentes do presente. A atmosfera de época é construída por meio dos figurinos, da iluminação e da trilha sonora, mas o centro da narrativa está na permanência de uma violência que atravessa gerações.

A história começa em uma residência da família Fetal, localizada nas proximidades da Praça da Piedade. Júlia estava acompanhada da mãe e tocava piano quando João Estanislau invadiu o imóvel. Inconformado com o fim do relacionamento, o professor sacou uma arma e disparou contra a jovem à queima-roupa.

O crime teria sido motivado pelo comportamento ciumento e descontrolado do professor, que alimentava a suspeita de que Júlia o traía com Luiz Antônio Pereira Franco, estudante de Direito de Recife que passava férias na Bahia. Nenhuma dessas circunstâncias, porém, é apresentada como justificativa para o assassinato. Ao contrário: a montagem evidencia justamente como argumentos associados à posse e ao controle sobre a mulher foram historicamente utilizados para tentar explicar ou relativizar atos de violência.

De crime histórico a alerta contemporâneo

A proposta do espetáculo é fazer com que o passado dialogue diretamente com o presente. Ao reconstruir um feminicídio ocorrido em 1847, a peça convida o público a observar como determinadas ideias sobre relacionamentos e sobre o direito de homens controlarem a vida das mulheres permanecem presentes na sociedade.

Por isso, a apresentação também abre espaço para a escuta. Em razão da temática do espetáculo, será franqueada a palavra, ao final da sessão, para quem desejar compartilhar depoimentos relacionados à violência contra mulheres e aos relacionamentos tóxicos.

A iniciativa amplia o caráter da montagem: o teatro deixa de ser apenas espaço de representação e passa a funcionar também como território de reflexão, memória e diálogo. A história de Júlia, portanto, não termina quando as luzes se apagam. O objetivo é provocar perguntas sobre as formas de violência que podem se manifestar dentro das relações afetivas e sobre a necessidade de reconhecer sinais de controle e abuso.

SERVIÇO

Espetáculo: “Júlia Fetal e o Crime da Bala de Ouro”

Texto e direção: Adson Brito do Velho
Data: 1º de setembro de 2026 (terça-feira)
Horário: 19h
Duração: 50 minutos
Classificação: livre
Local: Teatro Xisto Bahia – Rua General Labatut, 27, anexo da Biblioteca Pública do Estado, Barris, Salvador/BA
Ingressos: R$ 20 (inteira) | R$ 10 (meia) – Bilheteria e Sympla
Contato: (71) 98631-3242

Elenco: Eobelle Rocha (Júlia Fetal), Alexandro Beltrão (João Estanislau), Orlita Cruz (Juliette Fetal), Sofia Bonfim (Mucama Leonor), Adson Brito do Velho (mestre de cerimônias)
Iluminação: Eduarda Pires
Figurinos: Orlita Cruz

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